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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Os Sonhos mais Sombrios - Capítulo Cinco





CAPÍTULO CINCO - PESADELOS



   Jerry teve sonhos perturbadores. Não havia imagens - não, ao menos, alguma que fizesse sentido. Tinha sensações, sentimentos, nada que pudesse decifrar facilmente. Ódio, dor, medo, vergonha... fome.
   Acordou no seu quarto. Estava suado e tinha jogado, inconscientemente, todas as cobertas sobre o chão. A janela estava entreaberta e o sol brilhava direto sobre seu rosto. Olhou para o lado, à procura do relógio despertador. Dez e meia. Por que sua mãe não viera apressá-lo para ir à aula, ele não sabia.
   Desceu contando os passos. A escadaria parecia mais alta do que estava acostumado. Encontrou a mãe na cozinha, fazendo limpeza. Ela o recebeu com um sorriso e falou alguma coisa sobre café, pão e ovo. Ele não prestou atenção. Ainda tinha sono, mas também tinha fome. Muita fome.
   Comeu quatro sanduíches com ovo, salame e requeijão, acompanhados de duas servidas de leite achocolatado. Depois, duas bananas e uma fatia de mamão. A mãe andava de um lado para outro, mas parou, depois de um tempo, para conversar:
   - Como se sente, filho? - ela questionou, admirada pela fome exagerada do garoto.
   - Bem, eu acho... Mãe, o que foi que aconteceu? Por que eu não lembro de nada?
   A mãe se levantou. Recolhendo as coisas da mesa e ajeitando panos de prato, respondeu:
   - Seu pai não me dá ouvidos. Eu disse a ele que precisaria visitar um médico. Mas ele está tão preocupado com os problemas da firma, que não quer saber de nada...
   - O que foi que aconteceu, afinal, mãe?! Não enrola!
   A mãe parou e o fitou, secamente dizendo:
   - Você ficou bravo com os rapazes, pela brincadeira de mal gosto que fizeram. Brigaram e... foi isso. Você saiu correndo depois, não houve como alcançá-lo. E aí sumiu por dois dias.
   Enquanto pensava sobre aquilo, tendo certeza plena de que a mãe havia escondido detalhes importantes, Jerry deu-se conta de que algo estava diferente.
   - Mãe... onde está o Cabum?
  - Eu não sei. Não o vi essa manhã. Mas ouvi seus latidos a certa hora da madrugada. Deve ter escapado lá para fora. Não se preocupe, ele conhece todo esse bairro e sabe o caminho de casa.
    Jerry saiu correndo para o pátio. A resposta estava logo adiante. Cabum estava amarrado à cerca, enforcado, com o crânio rachado e marcas de espancamento em várias partes do corpo. O garoto se aproximou em desespero. Não tinha força nem habilidade para desfazer os nós da corda que prendia o corpo de seu cachorro. Só conseguia chorar e gritar. Quando a mãe surgiu atrás dele, completamente horrorizada com o que via, Jerry enfim percebeu um papel grudado ao pelo do animal, onde estava escrito: "Isso foi pela minha orelha".

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Os Sonhos mais Sombrios - Capítulo Quatro



CAPÍTULO QUATRO - O ÚLTIMO RETORNO PARA CASA



   Jerry foi encontrado por um senhor obeso, barbudo e grisalho, que dirigia sozinho uma caminhonete antiga. Primeiro, foi xingado de todas as formas que conhecia, porque tinha aparecido de repente na frente do carro e ficou parado como um animal selvagem, diante da luz dos faróis. Depois, o velho compreendeu que o garoto estava ferido e perdido e decidiu levá-lo à delegacia mais próxima.



   Já havia se passado duas horas, quando, no corredor à frente da sala do delegado, Jerry aguardava que seus pais fossem buscá-lo. Como não havia conseguido contar nada aos policiais sobre o que havia acontecido - na verdade, mal tinha balbuciado -, eles tiveram um trabalho enorme para descobrir que o garoto era aquele que havia desaparecido de uma pequena cidade vizinha dois dias antes.



   Um relógio de parede tocou uma musiquinha quando alcançou três horas. Nesse momento, sua mãe surgiu no corredor, junto de seu pai e de um dos policiais de plantão. A mãe o abraçou, chorou, resmungou, fez um monte de perguntas. O pai apenas afagou sua cabeça e teve um diálogo breve com o policial, antes de entrar na sala do delegado.



   - O que você estava pensando? - disse a mãe - Não precisava ter fugido desse jeito! Oh, meu Deus, os garotos estão bem, você não precisava se sentir tão culpado! Claro, você não precisava ter feito aquilo, mas... Nós conversamos com os pais deles e, como você sumiu, eles te perdoaram. E aqueles garotos nunca mais vão rir de você, pode ter certeza!



   - Mãe! Para! Diz, por favor... O que foi que eu fiz?



   A mãe o fitou confusa. Olhou diretamente nos seus olhos, tentando absorver algum sentido no que Jerry dizia, mais ou menos como se estivesse falando noutro idioma. Sorriu, nervosa, e perguntou: "Você não lembra? Não... não lembra o que fez?"



   Foram interrompidos pelo pai e o delegado que, ao saírem da sala, comentavam algo sobre ele ter de ser examinado num hospital.



   - Ora, ele parece estar bem, não é mesmo? - prosseguiu o pai - Deve estar louco para voltar para casa. E precisa de um banho, isso sim! Vamos, Jerry, vamos, Márcia. Já tomamos tempo demais dos policiais.

    Jerry saiu da delegacia abraçado pela mãe. O pai andava na frente, parecendo se esforçar para sufocar um pouco de impaciência. Tão logo entraram no carro, o garoto sentiu sono. Por isso, voltou para casa dormindo no banco de trás, sem ouvir a conversa cheia de acusações e lamentações que seus pais tiveram até que chegassem em casa.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Os Sonhos mais Sombrios - Capítulo Três



CAPÍTULO TRÊS - ONDE OS SONHOS SE ESCONDEM

   Jerry acordou de susto, sem saber onde estava, deitado sobre arbustos e galhos e sob a sombra de árvores que nunca havia visto. Parecia uma trilha no meio do mato. "Como havia chegado ali?", perguntou-se. Mas não havia ninguém para responder.

   Levantou devagar. Tinha dores em todo o corpo. A roupa estava rasgada em algumas partes, como se tivesse sido lacerada em arame farpado, ou espinhos, talvez. E havia o cheiro de sangue seco também. E nem todo aquele sangue era seu. Ele podia sentir. Tinha gosto de sangue nos lábios.

   Caminhou por um longo tempo, procurando claridade. Mas era noite, e mesmo a intensa luz da lua cheia que penetrava pelas copas das árvores era incapaz de guiá-lo. Estava perdido. Já pensava em parar para descansar, quando avistou uma clareira, bem aos pés de um morro, e viu que a luz de uma fogueira vinha de lá. Parecia haver risos e conversa animada. Resolveu se aproximar.

   - Não vai querer ir lá - ouviu, atrás de si. Havia uma silhueta se insinuando por detrás de uma árvore, quase impossível de distinguir. A voz era rouca, grave e masculina.

   - Eles estão bêbados e por isso não o notaram - continuou o homem oculto -, mas eu não. Na verdade, eu já sabia que viria.

   Jerry queria fazer perguntas, pedir ajuda. Mas o homem o interrompeu, aproximando-se e colocando a mão sobre sua boca. Foi quando o garoto notou que o homem tinha muitos pelos no rosto e nas mãos e havia algo espantoso saindo de sua testa: chifres, como os de um bode.

   - Tudo a seu tempo. Você é só um garoto e ainda não é o momento. Siga o conselho que vou lhe dar e saia daqui, imediatamente! Corra como o vento, na direção exata de onde veio, até que retorne à estrada. Eu voltarei a lhe encontrar, quando for possível.

   A língua de Jerry estava dura. Não teria como falar, mesmo se soubesse o que dizer. Então, quando aquele homem... não, aquela criatura o largou, saiu correndo desesperadamente, como se sua própria vida dependesse disso.

    E dependia mesmo.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Os Sonhos mais Sombrios - Capítulo Dois





CAPÍTULO DOIS - NUM DIA DE FESTA



   Na data de seu aniversário, Jerry estava pronto para ter mais uma tarde de solidão, lendo seus gibis, jogando videogame, assistindo TV e morrendo de tédio. Só que sua mãe estava organizando uma festa, para sua total surpresa. E praticamente todas as pessoas da rua viriam, de crianças a idosos. Jerry não insistiu em perguntar o porquê daquilo tudo. Sabia que a resposta de sua mãe não valeria a pena e imaginava que seu pai acabaria lhe xingando por "desapontar sua mãe".



   Quando a festa aconteceu, não demorou a perceber que as pessoas não haviam vindo para lhe parabenizar - seu único propósito era comer as delícias que sua mãe havia feito. Ela era confeiteira, e das boas, de modo que trazer um abraço fingido e um presente aleatório para o garoto nada mais era do que uma desculpa para encher a barriga de doces, salgados e cachorros-quentes. Os homens bebiam cerveja, as mulheres trocavam fofocas e as crianças riam, conversando ou jogando, mas Jerry preferiu ficar sozinho à volta da mesa da comida. Foi quando percebeu que estava com fome. Muita fome.



   Os garotos vieram do pátio chamar por Jerry, dizendo que haviam preparado uma brincadeira, que ele iria gostar. Uma surpresa. Mas Jerry estava comendo e não queria ser perturbado. Além disso, algo parecia lhe dizer que aquilo não seria nada bom. Por isso, continuou sentado, como se não tivesse ouvido. Mas os garotos insistiram, então teve que se levantar, mesmo que contrariado.



   Quando chegou ao pátio, vendaram seus olhos e lhe deram alguma coisa nas mãos. "Um taco de madeira", pensou, "e há um prego num dos lados". E disseram "você tem que estourar o balão!" Ora, era uma brincadeira interessante, no final das contas! Devia ser um daqueles balões que escondem doces dentro. Então, se conseguisse estourar o balão, todos teriam balas e ele poderia voltar lá para dentro satisfeito.



   Aquilo era exatamente como sua mãe havia planejado. Mas ela não havia percebido que os garotos do bairro haviam trocado o balão de doces por outro, contendo algo muito menos proveitoso: uma pequena amostra de urina e fezes. Assim, quando Jerry finalmente conseguiu encontrar e estourar o balão, derramou sobre sua própria cabeça a diarreia de um de seus vizinhos.

    Tirou dos olhos a venda e não conseguiu se decidir se chorava ou explodia de raiva. Todos o observavam. As mulheres estavam horrorizadas, os homens enojados, as meninas tinham ânsia de vomitar. Mas os meninos... os meninos riam. Só então Jerry teve certeza: era ira o que estava sentindo. A ira mais profunda de todas.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Nova Série - Os Sonhos mais Sombrios

Não é de hoje que minha paixão por RPGs me inspira a escrever. Mas, até recentemente, muito da minha inspiração havia minguado. Eis que, então, ressurge das cinzas, após o lançamento da edição de 20º aniversário do RPG Changeling - O Sonhar, talvez um dos RPGs que mais admirei em toda vida.



Changeling fala sobre pessoas oprimidas por uma realidade amarga, de afazeres repetitivos, de desilusões persistentes, de negação constante contra o que é fabuloso. Ao mesmo tempo, Changeling fala sobre aventuras fantásticas, epopeias alucinantes e magia deslumbrante.

Cada Changeling sabe que é um ser muito mais incrível que um simples ser humano. Eles são mitos, cheio de poderes e peculiaridades fantásticas, mas isso é algo que eles não conseguem facilmente expressar ou demonstrar, porque a Banalidade, força que nasce do cinismo, da descrença (ou da falsa fé), da rejeição às maravilhas, obrigou-os a abrigar suas almas feitas da essência dos sonhos nos corpos de mortais comuns. Assim sendo, eles interagem com o mundo de uma maneira só sua, vendo aquilo que os homens veem e coisas além, como a loucura de Dom Quixote, a ver gigantes onde há moinhos. São Fadas. E não são.

As partidas e histórias de Changeling tratam das vivências desses seres de vida dupla, sempre fugindo da mundanidade humana e da possibilidade de enlouquecerem a si mesmo com os excessos de sua magia. Falam de viagens épicas às profundezas dos Reinos dos Sonhos e Pesadelos e da luta constante pela própria identidade, sempre ameaçada por uma realidade que rejeita sua existência. Falam sobre esperança e sobre medos, sobre diversão e sobre terror.

O personagem de minha nova série - Os sonhos mais sombrios - incorpora um desses seres lendários. Um changeling, mas ainda não sabe disso.

Minha série tem o propósito de mostrar o lado mais perverso desse cenário fantástico, aquele onde os pesadelos moram. Entretanto, essa não é a única forma de ver, jogar ou explorar os enredos possíveis para Changeling - O Sonhar. É apenas aquela que eu escolhi para narrar. Portanto, se quiser saber mais, sinta-se estimulado a conhecer o livro básico de regras do jogo, que pode ser adquirido em lojas especializadas em hobbys ou sites da internet.

Cada capítulo deve ser bem curtinho. Nada mais que "uma página" de texto. Na estreia, você começa a acompanhar a descoberta dessa nova realidade, o que levará a momentos de amargura e tragédia, e também a um bocado de violência.

AVISO: a série não é recomendada para pessoas sensíveis!!

 

Os sonhos mais Sombrios
CAPÍTULO UM - ANTES DE TUDO

   Era um garoto que, como eu, amava rock e super-heróis. Mas, até antes de seus treze anos, não havia feito uma amizade sequer.

   Jerry tinha uma forma rara e severa de daltonismo e era péssimo em matemática. Também não tinha qualquer talento com esportes e poucos se importariam em saber que possuía uma capacidade impressionante para aprender músicas de ouvido, porque seu pai se recusava a lhe dar uma guitarra. Praticava música com garrafas preenchidas de água, mas a mãe já havia pedido que jogasse todas fora.

   Os colegas de aula o chamavam de ratazana. Os vizinhos de sua idade preferiam chamá-lo de cocota. Ele se recusava a aceitar qualquer um dos apelidos, mas, como todos sabem, a opinião da vítima de bullying é poucas vezes levada em consideração. E, assim, era mais comum que passasse suas tardes sozinho, lendo gibis de frente à janela do quarto, em vez de brincando com as crianças e adolescentes do bairro, por quem ele nutria profundo ressentimento.

   Um único ser em toda existência fazia com que entendesse qual era o significado de amizade: o velho cão vira-latas que tinha desde os cinco anos, chamado Cabum. Estava sempre ao seu lado, roendo um jacaré de borracha, único brinquedo da infância que Jerry ainda guardava, ou dormindo sobre sua almofada. Costumavam passear juntos nos fins de tarde, quando a presença de Cabum intimidava os vizinhos a não importunarem o garoto. Eram como unha e carne.
    Até que, então, chegou o dia de seu décimo terceiro aniversário. E, contra todas as maiores possibilidades, as coisas só iriam piorar.